22 de fevereiro de 2021

Confissões veladas: “O caminho para a manipulação do entrevistado”

Tempo de leitura: 4 minutos

Durante as entrevistas investigativas feitas pelos profissionais do IPRC Brasil, as confissões veladas foram de grande importância para o sucesso dos casos e hoje vamos falar delas em dois casos.

Uma delas em um caso de assédio sexual no qual a suposta vítima (denunciante) do assédio confessou verbalmente e por escrito ter beijado o suposto assediador algumas vezes dentro da empresa. Assim, alterando a classificação do caso, tendo em vista a confissão e as demais informações passadas pela entrevistada sobre o contexto do relacionamento entre ela (suposta vítima) e o suposto assediador.

A outra confissão velada está relacionada a um caso de desvio de ativos no qual um funcionário se apropriou de maneira indevida de várias televisões da empresa.  

Não sei se todos sabem, mas em nossa metodologia sempre antes da realização da entrevista investigativa moderna aplicamos um questionário dissertativo customizado ao tipo de caso no qual contém perguntas diretas e assertivas que tem como objetivo por meio da análise do conteúdo verbal identificar o grau de resistência do participante com relação ao assunto, como também, seu grau de sinceridade.

O questionário dissertativo não é um simples questionário, pois ele possui uma lógica para verificar se a pessoa se esforça para explicar como a fraude pode ter ocorrido, se ela coloca a culpa ou não na empresa pela ocorrência da fraude, quais os sentimentos expressados nas suas respostas dentre várias outras coisas importantes.  

Criar um questionário aleatório que esteja fora da metodologia não trará informações que ajudem o entrevistador durante a entrevista a manipular o entrevistado até a obtenção da confissão.

Dado este contexto, agora compartilharei algumas respostas fornecidas pelo entrevistado durante o questionário que em nossa opinião representam confissões veladas:

P: “Liste as causas mais importantes que poderiam ter criado os desvios das TV’s?” R: “Descontentamento com a empresa, salário baixo, chefe ruim, falta de oportunidade e ganhar dinheiro”.

Análise: Note que as causas apresentadas pelo participante em sua maioria colocam a culpa na empresa, ou seja, isentando o responsável pelos desvios. Geralmente pessoas não envolvidas e sinceras colocam a culpa nos envolvidos pelos desvios atrelando palavras que comprometam a sua ética e moral como nos exemplos a seguir: “Falta de honestidade da pessoa, ganância, má índole, falta de lealdade com a empresa, vingança” e qualquer outra coisa que comprometa a reputação e a ética dos envolvidos.

P: “Como você se sente agora que respondeu este questionário?” R: “Normal”

Análise: A normativa do ser humano é: Geralmente uma pessoa que não está envolvida em desvios quando é convocada a participar de um processo de investigação para responder um questionário apresenta sentimentos que não indicam uma normalidade ou tranquilidade em participar, pois não é todo dia que se passa por uma investigação. Sentimentos de preocupação (de repente os investigadores podem cometer erros e me incriminarem indevidamente), indignação/revolta por estar passando por uma situação que você não deveria por não estar envolvido nos desvios e até mesmo de alívio por saber que a empresa está tratando a situação e não irá deixar barato são os mais identificados em pessoas não envolvidas. Assim, ao identificar sentimentos que indiquem normalidade ou até mesmo uma resposta do tipo “da mesma forma quando iniciei”, que está mais ligada a uma ausência de emoções, fique atento e preste muita atenção nas demais respostas, ou você se sentiria normal passando por uma investigação?

P: “O que você diria se mais tarde ficasse estabelecido que você não foi verdadeiro neste questionário?” R: “Não sei responder a esta pergunta, até este momento estou tentando ser verdadeiro”.

Análise: Pessoas não envolvidas e sinceras normalmente desqualificam essa possibilidade como respostas do tipo: “Isso não acontecerá”, “Eu fui verdadeiro” ou até mesmo “Impossível” ou “Vocês erraram”. A resposta do participante já indica que ele mesmo de forma inconsciente já cogita a hipótese de ser descoberto. Outro ponto importante é quando ele mensura a sua intenção “estou tentando ser verdadeiro”, ou seja, tentar é apenas uma intenção que não necessariamente se torna em uma ação.

P: “Se lhe pedissem para pagar pelos prejuízos causados pelos desvios das TV’s da empresa, quanto você pagaria?” R: “10% do meu salário”

Análise: Agora explicarei a análise com uma pergunta: “Você pagaria por algo que você não desviou?”. Pessoas não envolvidas não cogitam esta possibilidade e respondem com palavras que que negarão pagar por algo que não fizeram.

P: “Você daria uma segunda chance para os envolvidos nos desvios das TV’s da empresa?” R: “Sim”

Análise: Pessoas não envolvidas não respondem dessa forma. Elas não dão nenhum tipo de desconto e nem muito menos flexibilizam as consequências para os envolvidos. Este tipo de resposta mostra o que o participante deseja e espera para ele como atitude por parte da empresa.

P:“O que você diria se fosse constatado o seu envolvimento no desvio das TV’s da empresa?” R: “Não saberia o que dizer”

Análise: Novamente não descartou a possibilidade de ser constatado o seu envolvimento apenas dizendo que não saberia o que dizer. Pessoas não envolvidas e sinceras não aceitam esta possibilidade pelo simples fato de não estarem envolvidas e geralmente respondem: “Isso não acontecerá” , “É mentira” , “A investigação errou” , “Impossível” dentre outras respostas similares que inviabilizem a constatação.

Por fim, gostaria de ressaltar que em detecção de mentiras nada é 100%, mas tanto do ponto de vista verbal quando do ponto de vista não verbal existem padrões que se aproximam mais da verdade e padrões que se aproximam mais da mentira.

Assim, mesmo com várias confissões veladas como vimos neste caso o entrevistador não pode deixar de seguir a técnica e todas as etapas da entrevista para tentar obter a confissão de forma mais rápida. Tudo tem o seu tempo e as informações obtidas no questionário auxiliarão muito no processo de desenvolvimento de temas e na apresentação de alternativas para o entrevistado não colocar a culpa só nele, mas também na empresa e assim ter maior facilidade para falar os porquês do seu ato por conta da diminuição do peso da sua ação.

Boa semana a todos!

Porque escolher é humano!

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