24 de novembro de 2021

IPRC contra o Dia da Consciência Negra

Tempo de leitura: 4 minutos

Dia 20 de novembro de 2021, aqui quem fala é Roberta Basílio, mais uma sobrevivente. Aqui estou mais um dia…” “Ninguém é mais que ninguém, absolutamente. Aqui quem fala é mais uma sobrevivente” (Racionais MC’s).

Para quem não sabe, essa é uma alusão às músicas dos Racionais MC’s.  Sim, eu gosto de começar alguns textos com letras de RAP ou samba, porque fazem parte da cultura do meu povo! Cultura que muitas vezes é marginalizada (mas não representamos apenas isso, ok?).

Ao ser convidada a escrever algo sobre o dia da Consciência Negra, eu fiquei pensando: “O que tem para se falar sobre esse dia?” Afinal de contas, todos os dias eu tenho consciência do que é ser negra no Brasil. Tenho orgulho da minha ancestralidade e de carregar uma filosofia de vida baseada em matrizes africanas, que trazem essa essência.

[Confesso que fiquei resistente. Porém, foi um convite do @renatosantos. E quando o chamado vem de um mestre, já vem sempre com um desafio!]

Voltando…

Mas, depois eu lembrei, que nem sempre foi assim. Já alisei muito o cabelo para caber no padrão estético do mundo corporativo e não me percebia como uma mulher negra, pois era chamada de morena. Além disso, também já omiti sobre minhas crenças, ao ser perguntada sobre religião entre colegas de trabalho. Essas foram algumas das minhas estratégias de enfrentamento (adaptação a essa realidade) ao racismo. É o exemplo nítido de “Pele negra, máscaras brancas” de Franz Fanon.

Porque o mundo tem como referência o padrão europeu: pele branca, cabelo liso, a sapatilha de balé cor de pele rosa, a touca de natação que não cabe um cabelo Black power, um esmalte cor nude e uma maquiagem que não funciona na pele negra. Logo, isso nos conduz a acreditar que 365 dias no ano serão dedicados às estratégias de enfrentamento, para quem está fora deste padrão.

Eu não sou uma representante das pessoas negras, pois somos plurais e temos opiniões diferentes. Então, longe de mim, querer falar em nome do povo preto. Mas, eu falo sobre uma realidade que muitos de nós compartilhamos. Então, quem é sabe como funciona.

Há quem ache que é mimimi, vitimismo, militância ou sabe-se lá mais o que. Neste caso, não há muito o que discutir com quem já tem sua “certeza absoluta”, pois já dizia a pedagogia: o aprendizado é uma decisão do aprendiz, então não há o que ensinar, para quem sabe tudo ou não queira refletir/ aprender. Ainda há quem tem certeza absoluta de que exista “racismo reverso”.

Além disso, tenho a percepção que é cansativo ficar discutindo algo do tipo: “a terra é plana”. Discutir sobre o porquê há o Dia da Consciência Negra ou se há racismo, é tão cansativo quanto. Afinal de contas, quem disse que são as pessoas negras que têm que ensinar sobre ser antirracista?

A discriminação racial está nos detalhes. É aquele racismo recreativo, que são as piadas e apelidos. É aquela implicância sem motivo, que você não sabe de onde vem… É exaltar a sensualidade das mulheres e homens negros (morena da cor do pecado). É subestimar a competência, dizendo que não dá pra nivelar por baixo. É perguntar cadê o diretor financeiro, ao se deparar com um homem negro (sim, há empreendedores negros de sucesso donos da grana toda). Alô @nilsondiascardoso, aquele abraço!

Não adianta querer ser antirracista, mas chamar pessoas negras para trabalhar em meio a discriminação salarial, ou pior, sem remuneração, dizendo que isso vai ser bom para o currículo dela.

Não adianta dizer que não é racista, mas acredita na consciência humana (argumento “color blindness”).

Não adianta dizer que não é racista, quando seu consumidor negro está sendo desumanizado e maltratado no seu marketplace.

Não adianta ser antirracista, mas continuar com a cultura do tokenismo (aqui tem 1 pessoa negra).

Não adianta ser antirracista, mas vir com papo de meritocracia, pois…

Apesar de todo contexto de atraso histórico-social (onde povos arrancados a força de África foram escravizados e trazidos para o ocidente), para pessoas negras aplica-se a “excelência negra”, já para as brancas, não. É permitido errar, pois errar é humano. Nesse sentido, percebemos a desumanização das pessoas negras, como George Floyd precisou morrer para tornar evidência disso para o mundo. Aliás, muitos George Floyds estão morrendo todos os dias, mesmo que nós não vejamos na internet ou na TV.

Para quem é negro, todos os dias são de exercício da consciência negra, trazendo orgulho de ter a ancestralidade africana em sua identidade. Para os demais, o dia 20 de novembro ainda é entendido como aquele em que é “permitido” dar espaço às pessoas negras para falarem sobre racismo, discriminação e diversidade. E nos 364 dias do ano? Qual é o espaço que as organizações (incluindo as instituições de ensino) e a sociedade estão dando esse espaço?

Além disso, só convidar pessoas negras para falar de racismo, discriminação e diversidade é cansativo, para dizer o mínimo. Temos bons profissionais negros, que não tiveram e ainda não têm espaço para falar de tantos outros assuntos. Aliás, dizer que tem dificuldade para preencher vagas com pessoas negras é um argumento cuja resposta já diziam nossas mães: “pare de má vontade, porque você não procurou direito”.

A consciência racial e o orgulho à ancestralidade africana é algo que precisa ter espaço todos os dias. A discriminação é uma porta aberta ao comportamento humano do risco, tanto nas empresas, quanto na sociedade.

Por isso, o IPRC Brasil convida todas, todos e todes à reflexão diária, para questionar os padrões raciais, culturais e privilégios dessa sociedade, que ainda, segue reproduzindo o racismo, a discriminação e a marginalização.

Roberta Basílio – Pesquisadora e Professora do IPRC Brasil

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